terça-feira, 24 de novembro de 2009

Quanto vale a Cultura

Já está aprovado pela Câmara dos Deputados o projeto de lei que estipula um valor de R$50,00 mensais para os trabalhadores brasileiros utilizarem em produtos referentes à cultura. O vale-cultura foi criado para estimular hábitos culturais na população e reverter as alarmantes estatísticas do nosso país quando o assunto é cultura, ou a falta dela. Segundo o IBGE, 86% dos brasileiros vão menos de uma vez por mês ao cinema, 90% da população nunca visitou museus e 93% nunca foi à uma exposição de arte. Ainda segundo o IBGE, dos quase duzentos milhões de habitantes, apenas 17% compram livros.
Como brasileiro, torço para que essa lei - junto com uma outra série de medidas, claro - possa firmar uma base sólida de cultura no Brasil calejado de injustiça e carente de reforma. Por outro lado, penso que o excesso de anti-cultura entupido goela abaixo no senso comum é um processo irreversível. A boa intenção do humilde governo perante a máquina manipuladora da TV brasileira é só o primeiro passo de um longo caminho, caso haja resultado. A maioria da população diz não ter tempo para ler, mas assiste TV em média 3 horas por dia. Num país onde um jornal custa menos do que uma garrafa de cerveja, é triste - porém entendível - que uma parcela tão grande da população se limite a uma parcela tão pequena de informação e cultura.
Apesar de já aprovado, o vale-cultura ainda está em discussão para acertar assuntos como a forma pela qual o benefício será repassado ao funcionário, a porcentagem a ser descontada, quais segmentos e estabelecimentos poderão receber o vale, dentre outros.
Mas o que gerou maior discussão foi a aparição de um folder produzido pela Frente Parlamentar Mista em Defesa da Cultura que, segundo o senador Demostenes Torres, tem caráter eleitoreiro. O material traz impresso os nomes de uma centena de congressistas que fazem parte da frente parlamentar e mostra uma lista de dez ações do governo relacionadas à cultura. Mas segundo o ministro da cultura Juca Ferreira, o folder não foi feito com verba do governo, apesar de conter a logomarca do Ministério da Cultura, da Câmara dos Deputados e da Frente Parlamentar em Defesa da Cultura.


quarta-feira, 18 de novembro de 2009

O filme do Lula


O filme "Lula, o Filho do Brasil" - que foi exibido na abertura do 42º Festival de Cinema de Brasília no último dia 17 - pode ter o maior lançamento da história do cinema nacional. O longa de 128 minutos conta a trajetória do presidente Lula até se tornar um líder sindical e foi inspirado no livro de Denise Paraná, lançado em 2002. A versão para o cinema do diretor Fábio Barreto tem estréia prevista para 1º de Janeiro de 2010 em 500 salas em todo o Brasil (mais do que o recordista nacional "Se eu fosse você 2" com 315 salas), contará com ingressos a preços populares nos sindicatos e lançamento em cidades do interior consideradas fora do grande circuito. A estratégia de lançamento visa alcançar o máximo de brasileiros, apreciadores de cinema ou não.
A oposição já tem visão política sobre o lançamento do filme, considerando-o um dramalhão apelativo para emocionar os espectadores futuros eleitores. Eles acreditam que o lançamento do filme em pleno ano de eleição presidencial é uma tentativa descarada de eleger Dilma Roussef, atual ministra da Casa Civil. Outro fato intrigante sobre a película é que a verba de 12 milhões de reais para a produção do filme veio de empreiteiras que não têm o hábito nem histórico de investimento em cultura, mas todas elas têm forte ligação com o governo Lula. Os poucos privilegiados que assistiram às poucas cópias de cortesia concordaram que o filme não é nenhuma super produção, e alguns até arriscam críticas com conteúdo político e cinematográfico. Elio Gaspari escreveu no Blog de Ricardo Noblat que "o herói implausível de "Lula, o filho do Brasil", encanta, comove, e só. Torce-se por ele, mais nada".
Não é a primeira vez que personagens de ficção são considerados influenciadores da população na hora do voto. O personagem Sassá Mutema, vivido por Lima Duarte na novela "O salvador da pátria" exibida pela rede globo em 1989, é um exemplo. Sassá era um bóia-fria agricultor que teve sua trajetória marcada pela injustiça, se tornou um forte nome da política e se candidatou ao cargo de prefeito da cidade. Já sabemos que a vitória de Sassá não alterou o eleitorado que decidia entre Lula e Fernando Collor, uma vez que o candidado petista foi derrotado pelo boa-pinta da direita.
Lula agora está em vantagem. É situação e se preocupa com a oposição. Tem o poder de chefe de estado como arma para eleger sua Dilma em 2010 e um filme que conta sua vida sofrida. À forra depois de vinte anos. Se Sassá Mutema foi muito sutil, vamos logo ao escancarado. Ao invés de assimilar um personagem à realidade, tornemos personagem uma realidade. É mais eficaz, simples e direto.

domingo, 8 de novembro de 2009

A Voz do Brasil

Mesmo antes de se eleger presidente, Lula já era alvo de imitadores - de humoristas profissionais a bêbados piadistas - que se divertiam reproduzindo sua voz rouca e o som da sua "língua presa" dizendo "A luta continua, companheiro". Quando Lula se elegeu, duas coisas me vieram a cabeça: A primeira foi achar que essa onda de imitações cessaria com a mudança de Lula para Presidente Lula, em respeito ao nosso então líder de estado eleito pela população. Todos os humoristas e bêbados do Brasil me provaram o contrário. Lula nunca foi tão imitado como durante seu mandato e as piadas são atualizadas de acordo com seu desempenho no cargo. Mas a segunda questão era mais preocupante: Algum desses imitadores poderia se passar facilmente por presidente da república em uma conversa por telefone ou em alguma gravação que contenha apenas áudio. No último dia 02, um imitador nos provou que é realmente perigoso ter um presidente com voz cobiçada pelos imitadores. Vejam a matéria publicada no Comunique-se no dia 06/11:
O caso de uma entrevista concedida por um homem que se passou pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva à rádio australiana SBS será investigado pelo Gabinete de Segurança Institucional da Presidência, o GSI, informou uma fonte do governo.
O fato, segundo o Blog do Boleiro, aconteceu na última segunda-feira (02/11), quando a SBS e uma rádio estatal do Timor Leste receberam um e-mail em que um suposto assessor de Lula oferecia uma entrevista com o presidente, que falaria dos esforços para garantir a segurança no Rio de Janeiro na Olimpíada de 2016. O assessor se identificou como Caio Martins e justificou o contato por e-mail pela diferença de fuso-horário.
Após garantir uma entrevista com o presidente, Martins disse que ligaria para o estúdio direto do Palácio do Planalto. Mesmo desconfiada, a jornalista Beatriz Wagner, produtora executiva do programa de língua portuguesa da SBS, iniciou a entrevista com um homem com voz idêntica ao de Lula, nesta sexta-feira (06/11). A conversa durou 23 minutos, nela o suposto presidente falou dos Jogos Olímpicos, de Barack Obama, a quem chamou de “meu amigo escurinho” e se atrapalhou em outros temas.
A entrevista estava programada para ir ao ar neste sábado (07/11). A conversa foi editada e a SBS também preparou a divulgação da entrevista por e-mail. Diante da farsa, a transmissão da conversa foi cancelada.
Ainda desconfiada, Beatriz conversou com o cônsul geral Kywai de Oliveira, que estranhou o conteúdo da entrevista e pediu que a jornalista consultasse correspondentes no Brasil. Após a consulta, a jornalista chegou a conclusão de que o caso era uma farsa. No momento da entrevista Lula estava em viagem, além disso, a mesma entrevista havia sido oferecida para a Rádio Canadá, em Montreal.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Claude Lévi-Strauss morre aos 100 anos

Agência FAPESP – O antropólogo Claude Lévi-Strauss morreu, aos 100 anos, na madrugada do último domingo (1/11). O anúncio foi feito apenas nesta terça-feira (3/11) pela Escola de Estudos Avançados em Ciências Sociais de Paris (França).
Conhecido como o fundador da antropologia estruturalista, Lévi-Strauss participou, na década de 1930, da missão francesa que organizou alguns dos cursos da Universidade de São Paulo (USP) pouco após sua fundação, em 1934.
De acordo com Fernanda Arêas Peixoto, professora do Departamento de Antropologia da USP, a influência intelectual de Lévi-Strauss – que realizou no Brasil seus primeiros estudos de etnologia entre populações indígenas – transcende a antropologia.
“Ele foi sem dúvida um dos maiores antropólogos da história e, a partir de seus trabalhos ligados ao âmbito do parentesco e dos mitos, influenciou todos os ramos da antropologia. Mas, especialmente a partir de 1962, com a publicação de Pensamento selvagem, sua obra passou a dialogar com a filosofia. Daí em diante, o estruturalismo adquiriu uma importância enorme, com impacto na filosofia, na psicanálise, na crítica literária e nas ciências humanas de modo geral”, disse à Agência FAPESP.
Segundo Fernanda, que em 1991 defendeu na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) a dissertação de mestrado Estrangeiros no Brasil: a missão francesa na USP, o inegável impacto do pensamento de Lévi-Strauss sobre a antropologia brasileira se deu por meio de sua obra posterior à estadia no país.
“Na época da missão francesa, entre 1935 e 1938, ele era um jovem etnógrafo em período de formação. No Brasil, fez suas primeiras pesquisas de campo e trabalhos etnográficos. Publicou aqui seus primeiros trabalhos. Durante a Segunda Guerra Mundial, fixou-se nos Estados Unidos, onde completou sua formação”, contou.
A leitura de Lévi-Strauss feita pelo norte-americano David Mabury-Lewis, na década de 1960, exerceu forte influência na antropologia brasileira, reintroduzindo no país a obra do antropólogo nascido em Bruxelas, de acordo com Fernanda. Segundo ela, Mabury-Lewis participou naquele período do projeto Harvard-Brasil Central, realizado pelo Museu Nacional em parceria com a Universidade de Harvard (Estados Unidos).
Sob orientação de Fernanda, a mestranda Luiza Valentini está atualmente realizando uma pesquisa – com apoio da FAPESP – sobre a interação entre Lévi-Strauss, Dina Dreyfuss (sua esposa na época da missão francesa) e o escritor Mário de Andrade, que na década de 1930 empreendeu um amplo trabalho de campo sobre manifestações da cultura popular brasileira.
O trabalho tem base em documentação inédita da Sociedade de Cultura e Folclore dirigida por Andrade na época. “Mário de Andrade foi muito marcado por essa colaboração”, disse Fernanda.
Tristes trópicos
“Estudou na Universidade de Paris e demonstrou verdadeira paixão pelo Brasil, conforme registrado em sua obra de sucesso Tristes Trópicos, em que conta como sua vocação de antropólogo nasceu durante as viagens ao interior do país. Lévi-Strauss completaria 101 anos no fim deste mês”, divulgou a reitoria da USP em nota oficial.
Em 1927, Lévi-Strauss iniciou seus estudos em filosofia. Começou a lecionar em 1932. Em 1935, levado pelo “desejo da experiência vivida das sociedades indígenas”, como contou, aceitou lecionar na USP durante três anos. Nesse período, empreendeu diversas missões de estudo entre os índios Bororo e Nhambiquara, em companhia de sua esposa. O casal se separou em 1939, ao retornar à França. O antropólogo se casou novamente em 1945 e em 1954.
Banido do ensino em seu país, em decorrência das leis antissemitas da França ocupada do regime de Vichy (1940-1944), partiu para Nova York, onde teve contato com os surrealistas e se aproximou de Roman Jakobson, linguista que teve influência decisiva na construção de sua obra.
O pós-guerra foi um período instável para Lévi-Strauss, que publicou então suas primeiras obras de peso, ainda não reconhecidas. Foi adido cultural em Nova York e participou de missões da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) na Índia e no Paquistão. Em 1950, foi nomeado professor da Escola Prática de Altos Estudos da França.
Em 1955, publicou Tristes trópicos, um relato de suas viagens que se tornou ao mesmo tempo um sucesso literário e uma referência científica. Publicou Antropologia estrutural em 1958 e em 1959 assumiu o Departamento de Antropologia Social do Collège de France, passando a desenvolver atividade intensa como autor e organizador, que lhe valeram crescente reconhecimento internacional. Depois de O Pensamento selvagem (1962) e os quatro volumes de Mitologias, passou a ser reconhecido com um dos grandes autores do século 20.
Em 1973, foi eleito para a Academia Francesa. Em 1985, acompanhou o presidente francês François Mitterrand ao Brasil. Suas coleções de objetos foram expostas no Museu do Homem, em Paris, em 1989. Suas fotografias do Brasil foram editadas em 1994.