domingo, 24 de maio de 2009

Exemplo de disciplina

Sun Tzu, súdito do rei de Wu, foi o ho­mem mais versado que jamais existiu na arte militar. A obra que escreveu e os notáveis fei­tos que praticou são uma prova de sua profun­da capacidade e de sua experiência bélica. Antes mesmo de ter conquistado a grande re­putação que o distinguiu em todas as provín­cias que integram hoje o Império, seu mérito era conhecido em todos os lugares adjacentes à sua pátria.

O rei de Wu linha algumas contendas com o rei de Tchu. Eles estavam prestes a se engal­finharem numa guerra aberta e, de ambas as partes, corriam os preparativos. Sun Tzu não quis ficar de braços cruzados. Persuadido de que o personagem de espectador não fora talhado para si, apresentou-se ao rei de Wu, solicitando ingresso em suas hostes. O rei, feliz por um homem de tal mérito tomar seu partido, acolheu-o de bom grado. Quis vê-lo e interrogá-lo pes­soalmente.

- Sun Tzu - disse-lhe o rei -, li a obra que escreveste sobre a arte militar, e fiquei muito contente; mas os preceitos que sugeres me pa­recem de difícil execução. Alguns deles me parecem absolutamente impraticáveis. Será que tu mesmo poderias executá-los? Há um abismo entre a teoria e a prática. Imaginamos os mais belos estratagemas quando estamos tranquilos em nosso gabinete e só fazemos a guerra na imaginação. Tudo muda quando estamos no terreno. Geralmente, o que presumíamos fácil revela-se tarefa impossível.

- Príncipe - respondeu Sun Tzu -, nada disse em meus escritos que já não tivesse praticado nos exércitos, mas o que ainda não disse é que estou em condições de fazer qualquer um colocar em prática minhas ideias, bem como posso treinar qualquer indivíduo para os exer­cícios militares, se for autorizado a tanto.

- Compreendo - replicou o rei. - Queres dizer que instruirás facilmente, com tuas máximas, homens inteligentes, de índole prudente e corajosa; que formarás, sem muita dificuldade, para os exercícios militares homens afeitos ao trabalho, dóceis e cheios de boa vontade. Mas a maioria não é desse naipe.

- Não importa - continuou Sun Tzu. - Dis­se "qualquer um", e não excluo ninguém de minha proposição. Incluo até os mais sedicio­sos, os mais covardes e os mais fracos.

- Ouvindo-o falar - retomou o rei -, pare­ce que incutirias até nas mulheres sentimentos

- que plasmam os guerreiros, que as treinarias para os exercícios das armas.

- Sim, Príncipe - replicou Sun Tzu, com tom firme. - Rogo que Vossa Majestade acredite nisso.

O rei, entediado pelos divertimentos ordi­nários da Corte, aproveitou a ocasião para ob­ter um regalo diferente.

- Tragam-me aqui - disse - minhas cento e oitenta mulheres.

Ele foi obedecido, e as princesas aparece­ram. Entre elas, havia duas que o príncipe amava com devoção. Elas foram colocadas à frente das outras.

- Veremos - disse o rei, sorrindo -, vere­mos, Sun Tzu, se manténs a tua palavra. Nomeio-te general dessas novas tropas. Só terás que escolher o lugar mais apropriado no palácio para exercitá-las às armas. Quando elas es­tiverem suficientemente treinadas, me avisarás e eu virei fazer justiça à tua habilidade e a teu talento.

O general, sentindo todo o ridículo do pa­pel que lhe impingiam, não se desconcertou, mostrando-se, ao contrário, muito satisfeito da honra que o rei lhe fazia, não somente permi­tindo que visse suas mulheres, mas ainda colo­cando-as sob seu comando.

- Executarei a tarefa a contento, Majesta­de - replicou ele, com segurança. - Espero que, em breve, Vossa Majestade tenha ocasião de rejubilar-se com os meus serviços, convencen­do-se de que Sun Tzu não é homem de se van­gloriar.

O rei retirou-se para seus aposentos, e o guerreiro não pensou em mais nada senão em executar a tarefa. Solicitou armas e todo o equi­pamento militar para seus soldados. Depois de tudo pronto, conduziu suas tropas a uma das alas do palácio que lhe pareceu mais adequada a seus propósitos. Então, Sun Tzu dirigiu a palavra às favo­ritas:

- Vocês estão sob meu comando e sob minhas ordens. Devem me escutar atentamente e me obedecer em tudo o que ordenar. Essa é a regra militar fundamental. Evitem infringi-la. A partir de amanhã, farão o exercício diante do rei, e deverão estar prontas.

Depois dessas palavras, cingiu-as com o boldrié e lhes colocou uma alabarda na mão. Dividiu-as em dois grupos, colocando na fren­te as favoritas. Depois desse arranjo, começou as instruções nestes termos:

- Sabem distinguir a frente das costas, e a mão direita da mão esquerda? Respondam!

Só recebeu como resposta algumas gar­galhadas. Mas como permanecesse silencioso e sério, as concubinas responderam em unísso­no:

- Sim, sem dúvida.

- Assim, prestem muita atenção ao que vou lhes dizer. Quando o tambor der um único golpe, permaneçam na posição atual, prestan­do atenção ao que está em sua frente. Ouvindo dois golpes, virem-se, de forma que a frente ocupe o lugar da mão direita. Quando soarem três golpes, virem-se de forma que a frente ocu­pe o lugar da mão esquerda. Quando o tambor der quatro golpes, devem virar-se e a frente deve ocupar o lugar das costas. O que acabo de dizer pode não ter ficado claro. Repito: Um único golpe de tambor significa "Sentido!" Dois gol­pes, "direita, volver". Três golpes, "esquerda, volver". Quatro golpes, "meia volta". Repetin­do; a primeira ordem que darei será esta: pri­meiramente farei soar um único golpe. A esse sinal, ficarão prontas para o que vou ordenar. Alguns momentos depois, soarei dois golpes: então, todas juntas, virarão à direita, com gra­vidade. Em seguida, farei soar quatro golpes, e completarão a meia volta. Depois, retornarão à posição inicial e, como antes, ouvirão um único golpe. Compenetrem-se. Em seguida, farei soar, não dois, mas três golpes, e vocês volverão à esquerda. Ouvindo quatro golpes, completarão a meia volta. Compreenderam bem o que eu disse? Se têm alguma dificulda­de, não hesitem em me comunicar e tentarei solucioná-la.

- Estamos prontas, responderam as mu­lheres.

- Assim sendo - retomou Sun Tzu -, vou começar. Não se esqueçam de que o som do tambor substitui a voz do general, pois é por seu intermédio que ele lhes dá ordens. Sun Tzu repetiu essa instrução três vezes. Depois, ordenou de novo seu pequeno exérci­to. Em seguida, fez soar um golpe de tambor. A esse barulho, todas as princesas começaram a rir. Ele soou duas vezes, elas riram mais forte. O general, sem perder a compostura, dirigiu-lhes a palavra nestes termos:

- Pode ser que não tenha me explicado claramente. Se aconteceu isso, a culpa é minha. Vou tentar remediar o fato, falando-lhes de uma forma que esteja a seu alcance.

Em seguida, repetiu três vezes a mesma instrução, usando outros termos.

- Quero ver se agora serei melhor obede­cido.

Ele fez soar o tambor. Soaram dois gol­pes. Em virtude da situação estranha e grave em que se encontravam, as mulheres esquece­ram que era preciso obedecer. Após terem tentado controlar o riso que as sufocava, soltaram as mais vivas gargalhadas. Sun Tzu não se desconcertou. No mesmo tom que lhes tinha falado antes, disse-lhes:

- Se eu não tivesse me explicado bem, ou se vocês não me tivessem afirmado, em coro, que tinham compreendido, não seriam culpadas. Mas lhes falei claramente, como vocês mesmas ad­mitiram. Por que não obedeceram? Vocês mere­cem punição, e punição militar. No universo mi­litar, aquele que não obedece às ordens do gene­ral merece a morte. Vocês morrerão. Depois desse preâmbulo, Sun Tzu orde­nou que duas mulheres matassem as favoritas, que estavam à sua frente. No mesmo momento, um dos guardas das mulheres, percebendo que o guerreiro não estava brincando, correu para avisar o rei a respeito do que estava acontecen­do. O rei despachou alguém para proibir que Sun Tzu matasse as duas favoritas, sem as quais não podia viver. O general escutou com respeito o emissá­rio, mas não acedeu ao pedido do rei.

- Diga ao rei - respondeu - que Sun Tzu o considera bastante sensato e justo para pensar que ele pudesse ter mudado de ideia, e queira realmente que eu aceda à contra-ordem recen­te. O príncipe faz a lei, mas não poderia dar ordens que aviltassem a dignidade com que me revestiu. Ele me encarregou de treinar suas cento e oitenta mulheres. Sagrou-me seu general: cabe a mim fazer o resto. Elas me desobedeceram, por isso morrerão. Mal tendo pronunciado essas últimas palavras, tirou o sabre e, com o mesmo sangue-frio que mostrara até então, decapitou as duas favoritas, que comandavam as outras. Imediatamente, substituiu-as por outras, fez soar o tambor, como combinado. E, como se tivessem durante toda a vida exercido o ofício da guerra, as mulheres manobraram em silên­cio e de forma impecável.

Sun Tzu dirigiu-se ao emissário do rei:

- Vá avisar o rei - disse - que suas mu­lheres sabem fazer o exercício; que posso levá-las à guerra, fazer com que enfrentem todo tipo de perigo, até mesmo atravessar a água e o fogo. O rei, informado de tudo, ficou desespe­rado.

- Perdi - disse, suspirando - o que mais amava no mundo. Que esse estranho se retire em seu país. Não quero saber dele nem de seus serviços. Então, Sun Tzu disse:

- O rei ama palavras vazias. Não é capaz de juntar o gesto à palavra.

O tempo e as circunstâncias fizeram com que o rei fizesse o luto. Os inimigos estavam prestes a esmagá-lo. Então, convocou novamente Sun Tzu, nomeou-o general de seus exér­citos e, por seu intermédio, destruiu o reinado de Tchu. Os vizinhos que antes mais o inquie­tavam, cheios de temor à menção dos belos fei­tos de Sun Tzu, não hesitaram em pedir proteção a um príncipe que linha tal homem a seu serviço.

Fonte: Livro “A Arte da Guerra” edição da L&PM.

5 pessoas exerceram seu poder de comentar:

exoticlic.com disse...

nem sabia de tal historia mas dá um UP na gente pessoas que venceram varios obstaculos

Paulo Muzio disse...

Se eu ler tudo não preciso comprar o livrinho? he he

Silvio Koerich disse...

Tudo bem?

Tô te seguindo aki no teu blog, passa no meu e vê se curte, podemos nos fortalecer prestigiando e comentando no blog um do outro

abraço

Miriã Soares disse...

Por negligencia não li ainda "A Arte da Guerra", vc me incentivou!

Miriã Soares disse...

...a ler depressa!