terça-feira, 24 de novembro de 2009

Quanto vale a Cultura

Já está aprovado pela Câmara dos Deputados o projeto de lei que estipula um valor de R$50,00 mensais para os trabalhadores brasileiros utilizarem em produtos referentes à cultura. O vale-cultura foi criado para estimular hábitos culturais na população e reverter as alarmantes estatísticas do nosso país quando o assunto é cultura, ou a falta dela. Segundo o IBGE, 86% dos brasileiros vão menos de uma vez por mês ao cinema, 90% da população nunca visitou museus e 93% nunca foi à uma exposição de arte. Ainda segundo o IBGE, dos quase duzentos milhões de habitantes, apenas 17% compram livros.
Como brasileiro, torço para que essa lei - junto com uma outra série de medidas, claro - possa firmar uma base sólida de cultura no Brasil calejado de injustiça e carente de reforma. Por outro lado, penso que o excesso de anti-cultura entupido goela abaixo no senso comum é um processo irreversível. A boa intenção do humilde governo perante a máquina manipuladora da TV brasileira é só o primeiro passo de um longo caminho, caso haja resultado. A maioria da população diz não ter tempo para ler, mas assiste TV em média 3 horas por dia. Num país onde um jornal custa menos do que uma garrafa de cerveja, é triste - porém entendível - que uma parcela tão grande da população se limite a uma parcela tão pequena de informação e cultura.
Apesar de já aprovado, o vale-cultura ainda está em discussão para acertar assuntos como a forma pela qual o benefício será repassado ao funcionário, a porcentagem a ser descontada, quais segmentos e estabelecimentos poderão receber o vale, dentre outros.
Mas o que gerou maior discussão foi a aparição de um folder produzido pela Frente Parlamentar Mista em Defesa da Cultura que, segundo o senador Demostenes Torres, tem caráter eleitoreiro. O material traz impresso os nomes de uma centena de congressistas que fazem parte da frente parlamentar e mostra uma lista de dez ações do governo relacionadas à cultura. Mas segundo o ministro da cultura Juca Ferreira, o folder não foi feito com verba do governo, apesar de conter a logomarca do Ministério da Cultura, da Câmara dos Deputados e da Frente Parlamentar em Defesa da Cultura.


quarta-feira, 18 de novembro de 2009

O filme do Lula


O filme "Lula, o Filho do Brasil" - que foi exibido na abertura do 42º Festival de Cinema de Brasília no último dia 17 - pode ter o maior lançamento da história do cinema nacional. O longa de 128 minutos conta a trajetória do presidente Lula até se tornar um líder sindical e foi inspirado no livro de Denise Paraná, lançado em 2002. A versão para o cinema do diretor Fábio Barreto tem estréia prevista para 1º de Janeiro de 2010 em 500 salas em todo o Brasil (mais do que o recordista nacional "Se eu fosse você 2" com 315 salas), contará com ingressos a preços populares nos sindicatos e lançamento em cidades do interior consideradas fora do grande circuito. A estratégia de lançamento visa alcançar o máximo de brasileiros, apreciadores de cinema ou não.
A oposição já tem visão política sobre o lançamento do filme, considerando-o um dramalhão apelativo para emocionar os espectadores futuros eleitores. Eles acreditam que o lançamento do filme em pleno ano de eleição presidencial é uma tentativa descarada de eleger Dilma Roussef, atual ministra da Casa Civil. Outro fato intrigante sobre a película é que a verba de 12 milhões de reais para a produção do filme veio de empreiteiras que não têm o hábito nem histórico de investimento em cultura, mas todas elas têm forte ligação com o governo Lula. Os poucos privilegiados que assistiram às poucas cópias de cortesia concordaram que o filme não é nenhuma super produção, e alguns até arriscam críticas com conteúdo político e cinematográfico. Elio Gaspari escreveu no Blog de Ricardo Noblat que "o herói implausível de "Lula, o filho do Brasil", encanta, comove, e só. Torce-se por ele, mais nada".
Não é a primeira vez que personagens de ficção são considerados influenciadores da população na hora do voto. O personagem Sassá Mutema, vivido por Lima Duarte na novela "O salvador da pátria" exibida pela rede globo em 1989, é um exemplo. Sassá era um bóia-fria agricultor que teve sua trajetória marcada pela injustiça, se tornou um forte nome da política e se candidatou ao cargo de prefeito da cidade. Já sabemos que a vitória de Sassá não alterou o eleitorado que decidia entre Lula e Fernando Collor, uma vez que o candidado petista foi derrotado pelo boa-pinta da direita.
Lula agora está em vantagem. É situação e se preocupa com a oposição. Tem o poder de chefe de estado como arma para eleger sua Dilma em 2010 e um filme que conta sua vida sofrida. À forra depois de vinte anos. Se Sassá Mutema foi muito sutil, vamos logo ao escancarado. Ao invés de assimilar um personagem à realidade, tornemos personagem uma realidade. É mais eficaz, simples e direto.

domingo, 8 de novembro de 2009

A Voz do Brasil

Mesmo antes de se eleger presidente, Lula já era alvo de imitadores - de humoristas profissionais a bêbados piadistas - que se divertiam reproduzindo sua voz rouca e o som da sua "língua presa" dizendo "A luta continua, companheiro". Quando Lula se elegeu, duas coisas me vieram a cabeça: A primeira foi achar que essa onda de imitações cessaria com a mudança de Lula para Presidente Lula, em respeito ao nosso então líder de estado eleito pela população. Todos os humoristas e bêbados do Brasil me provaram o contrário. Lula nunca foi tão imitado como durante seu mandato e as piadas são atualizadas de acordo com seu desempenho no cargo. Mas a segunda questão era mais preocupante: Algum desses imitadores poderia se passar facilmente por presidente da república em uma conversa por telefone ou em alguma gravação que contenha apenas áudio. No último dia 02, um imitador nos provou que é realmente perigoso ter um presidente com voz cobiçada pelos imitadores. Vejam a matéria publicada no Comunique-se no dia 06/11:
O caso de uma entrevista concedida por um homem que se passou pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva à rádio australiana SBS será investigado pelo Gabinete de Segurança Institucional da Presidência, o GSI, informou uma fonte do governo.
O fato, segundo o Blog do Boleiro, aconteceu na última segunda-feira (02/11), quando a SBS e uma rádio estatal do Timor Leste receberam um e-mail em que um suposto assessor de Lula oferecia uma entrevista com o presidente, que falaria dos esforços para garantir a segurança no Rio de Janeiro na Olimpíada de 2016. O assessor se identificou como Caio Martins e justificou o contato por e-mail pela diferença de fuso-horário.
Após garantir uma entrevista com o presidente, Martins disse que ligaria para o estúdio direto do Palácio do Planalto. Mesmo desconfiada, a jornalista Beatriz Wagner, produtora executiva do programa de língua portuguesa da SBS, iniciou a entrevista com um homem com voz idêntica ao de Lula, nesta sexta-feira (06/11). A conversa durou 23 minutos, nela o suposto presidente falou dos Jogos Olímpicos, de Barack Obama, a quem chamou de “meu amigo escurinho” e se atrapalhou em outros temas.
A entrevista estava programada para ir ao ar neste sábado (07/11). A conversa foi editada e a SBS também preparou a divulgação da entrevista por e-mail. Diante da farsa, a transmissão da conversa foi cancelada.
Ainda desconfiada, Beatriz conversou com o cônsul geral Kywai de Oliveira, que estranhou o conteúdo da entrevista e pediu que a jornalista consultasse correspondentes no Brasil. Após a consulta, a jornalista chegou a conclusão de que o caso era uma farsa. No momento da entrevista Lula estava em viagem, além disso, a mesma entrevista havia sido oferecida para a Rádio Canadá, em Montreal.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Claude Lévi-Strauss morre aos 100 anos

Agência FAPESP – O antropólogo Claude Lévi-Strauss morreu, aos 100 anos, na madrugada do último domingo (1/11). O anúncio foi feito apenas nesta terça-feira (3/11) pela Escola de Estudos Avançados em Ciências Sociais de Paris (França).
Conhecido como o fundador da antropologia estruturalista, Lévi-Strauss participou, na década de 1930, da missão francesa que organizou alguns dos cursos da Universidade de São Paulo (USP) pouco após sua fundação, em 1934.
De acordo com Fernanda Arêas Peixoto, professora do Departamento de Antropologia da USP, a influência intelectual de Lévi-Strauss – que realizou no Brasil seus primeiros estudos de etnologia entre populações indígenas – transcende a antropologia.
“Ele foi sem dúvida um dos maiores antropólogos da história e, a partir de seus trabalhos ligados ao âmbito do parentesco e dos mitos, influenciou todos os ramos da antropologia. Mas, especialmente a partir de 1962, com a publicação de Pensamento selvagem, sua obra passou a dialogar com a filosofia. Daí em diante, o estruturalismo adquiriu uma importância enorme, com impacto na filosofia, na psicanálise, na crítica literária e nas ciências humanas de modo geral”, disse à Agência FAPESP.
Segundo Fernanda, que em 1991 defendeu na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) a dissertação de mestrado Estrangeiros no Brasil: a missão francesa na USP, o inegável impacto do pensamento de Lévi-Strauss sobre a antropologia brasileira se deu por meio de sua obra posterior à estadia no país.
“Na época da missão francesa, entre 1935 e 1938, ele era um jovem etnógrafo em período de formação. No Brasil, fez suas primeiras pesquisas de campo e trabalhos etnográficos. Publicou aqui seus primeiros trabalhos. Durante a Segunda Guerra Mundial, fixou-se nos Estados Unidos, onde completou sua formação”, contou.
A leitura de Lévi-Strauss feita pelo norte-americano David Mabury-Lewis, na década de 1960, exerceu forte influência na antropologia brasileira, reintroduzindo no país a obra do antropólogo nascido em Bruxelas, de acordo com Fernanda. Segundo ela, Mabury-Lewis participou naquele período do projeto Harvard-Brasil Central, realizado pelo Museu Nacional em parceria com a Universidade de Harvard (Estados Unidos).
Sob orientação de Fernanda, a mestranda Luiza Valentini está atualmente realizando uma pesquisa – com apoio da FAPESP – sobre a interação entre Lévi-Strauss, Dina Dreyfuss (sua esposa na época da missão francesa) e o escritor Mário de Andrade, que na década de 1930 empreendeu um amplo trabalho de campo sobre manifestações da cultura popular brasileira.
O trabalho tem base em documentação inédita da Sociedade de Cultura e Folclore dirigida por Andrade na época. “Mário de Andrade foi muito marcado por essa colaboração”, disse Fernanda.
Tristes trópicos
“Estudou na Universidade de Paris e demonstrou verdadeira paixão pelo Brasil, conforme registrado em sua obra de sucesso Tristes Trópicos, em que conta como sua vocação de antropólogo nasceu durante as viagens ao interior do país. Lévi-Strauss completaria 101 anos no fim deste mês”, divulgou a reitoria da USP em nota oficial.
Em 1927, Lévi-Strauss iniciou seus estudos em filosofia. Começou a lecionar em 1932. Em 1935, levado pelo “desejo da experiência vivida das sociedades indígenas”, como contou, aceitou lecionar na USP durante três anos. Nesse período, empreendeu diversas missões de estudo entre os índios Bororo e Nhambiquara, em companhia de sua esposa. O casal se separou em 1939, ao retornar à França. O antropólogo se casou novamente em 1945 e em 1954.
Banido do ensino em seu país, em decorrência das leis antissemitas da França ocupada do regime de Vichy (1940-1944), partiu para Nova York, onde teve contato com os surrealistas e se aproximou de Roman Jakobson, linguista que teve influência decisiva na construção de sua obra.
O pós-guerra foi um período instável para Lévi-Strauss, que publicou então suas primeiras obras de peso, ainda não reconhecidas. Foi adido cultural em Nova York e participou de missões da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) na Índia e no Paquistão. Em 1950, foi nomeado professor da Escola Prática de Altos Estudos da França.
Em 1955, publicou Tristes trópicos, um relato de suas viagens que se tornou ao mesmo tempo um sucesso literário e uma referência científica. Publicou Antropologia estrutural em 1958 e em 1959 assumiu o Departamento de Antropologia Social do Collège de France, passando a desenvolver atividade intensa como autor e organizador, que lhe valeram crescente reconhecimento internacional. Depois de O Pensamento selvagem (1962) e os quatro volumes de Mitologias, passou a ser reconhecido com um dos grandes autores do século 20.
Em 1973, foi eleito para a Academia Francesa. Em 1985, acompanhou o presidente francês François Mitterrand ao Brasil. Suas coleções de objetos foram expostas no Museu do Homem, em Paris, em 1989. Suas fotografias do Brasil foram editadas em 1994.

sábado, 3 de outubro de 2009

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domingo, 24 de maio de 2009

Exemplo de disciplina

Sun Tzu, súdito do rei de Wu, foi o ho­mem mais versado que jamais existiu na arte militar. A obra que escreveu e os notáveis fei­tos que praticou são uma prova de sua profun­da capacidade e de sua experiência bélica. Antes mesmo de ter conquistado a grande re­putação que o distinguiu em todas as provín­cias que integram hoje o Império, seu mérito era conhecido em todos os lugares adjacentes à sua pátria.

O rei de Wu linha algumas contendas com o rei de Tchu. Eles estavam prestes a se engal­finharem numa guerra aberta e, de ambas as partes, corriam os preparativos. Sun Tzu não quis ficar de braços cruzados. Persuadido de que o personagem de espectador não fora talhado para si, apresentou-se ao rei de Wu, solicitando ingresso em suas hostes. O rei, feliz por um homem de tal mérito tomar seu partido, acolheu-o de bom grado. Quis vê-lo e interrogá-lo pes­soalmente.

- Sun Tzu - disse-lhe o rei -, li a obra que escreveste sobre a arte militar, e fiquei muito contente; mas os preceitos que sugeres me pa­recem de difícil execução. Alguns deles me parecem absolutamente impraticáveis. Será que tu mesmo poderias executá-los? Há um abismo entre a teoria e a prática. Imaginamos os mais belos estratagemas quando estamos tranquilos em nosso gabinete e só fazemos a guerra na imaginação. Tudo muda quando estamos no terreno. Geralmente, o que presumíamos fácil revela-se tarefa impossível.

- Príncipe - respondeu Sun Tzu -, nada disse em meus escritos que já não tivesse praticado nos exércitos, mas o que ainda não disse é que estou em condições de fazer qualquer um colocar em prática minhas ideias, bem como posso treinar qualquer indivíduo para os exer­cícios militares, se for autorizado a tanto.

- Compreendo - replicou o rei. - Queres dizer que instruirás facilmente, com tuas máximas, homens inteligentes, de índole prudente e corajosa; que formarás, sem muita dificuldade, para os exercícios militares homens afeitos ao trabalho, dóceis e cheios de boa vontade. Mas a maioria não é desse naipe.

- Não importa - continuou Sun Tzu. - Dis­se "qualquer um", e não excluo ninguém de minha proposição. Incluo até os mais sedicio­sos, os mais covardes e os mais fracos.

- Ouvindo-o falar - retomou o rei -, pare­ce que incutirias até nas mulheres sentimentos

- que plasmam os guerreiros, que as treinarias para os exercícios das armas.

- Sim, Príncipe - replicou Sun Tzu, com tom firme. - Rogo que Vossa Majestade acredite nisso.

O rei, entediado pelos divertimentos ordi­nários da Corte, aproveitou a ocasião para ob­ter um regalo diferente.

- Tragam-me aqui - disse - minhas cento e oitenta mulheres.

Ele foi obedecido, e as princesas aparece­ram. Entre elas, havia duas que o príncipe amava com devoção. Elas foram colocadas à frente das outras.

- Veremos - disse o rei, sorrindo -, vere­mos, Sun Tzu, se manténs a tua palavra. Nomeio-te general dessas novas tropas. Só terás que escolher o lugar mais apropriado no palácio para exercitá-las às armas. Quando elas es­tiverem suficientemente treinadas, me avisarás e eu virei fazer justiça à tua habilidade e a teu talento.

O general, sentindo todo o ridículo do pa­pel que lhe impingiam, não se desconcertou, mostrando-se, ao contrário, muito satisfeito da honra que o rei lhe fazia, não somente permi­tindo que visse suas mulheres, mas ainda colo­cando-as sob seu comando.

- Executarei a tarefa a contento, Majesta­de - replicou ele, com segurança. - Espero que, em breve, Vossa Majestade tenha ocasião de rejubilar-se com os meus serviços, convencen­do-se de que Sun Tzu não é homem de se van­gloriar.

O rei retirou-se para seus aposentos, e o guerreiro não pensou em mais nada senão em executar a tarefa. Solicitou armas e todo o equi­pamento militar para seus soldados. Depois de tudo pronto, conduziu suas tropas a uma das alas do palácio que lhe pareceu mais adequada a seus propósitos. Então, Sun Tzu dirigiu a palavra às favo­ritas:

- Vocês estão sob meu comando e sob minhas ordens. Devem me escutar atentamente e me obedecer em tudo o que ordenar. Essa é a regra militar fundamental. Evitem infringi-la. A partir de amanhã, farão o exercício diante do rei, e deverão estar prontas.

Depois dessas palavras, cingiu-as com o boldrié e lhes colocou uma alabarda na mão. Dividiu-as em dois grupos, colocando na fren­te as favoritas. Depois desse arranjo, começou as instruções nestes termos:

- Sabem distinguir a frente das costas, e a mão direita da mão esquerda? Respondam!

Só recebeu como resposta algumas gar­galhadas. Mas como permanecesse silencioso e sério, as concubinas responderam em unísso­no:

- Sim, sem dúvida.

- Assim, prestem muita atenção ao que vou lhes dizer. Quando o tambor der um único golpe, permaneçam na posição atual, prestan­do atenção ao que está em sua frente. Ouvindo dois golpes, virem-se, de forma que a frente ocupe o lugar da mão direita. Quando soarem três golpes, virem-se de forma que a frente ocu­pe o lugar da mão esquerda. Quando o tambor der quatro golpes, devem virar-se e a frente deve ocupar o lugar das costas. O que acabo de dizer pode não ter ficado claro. Repito: Um único golpe de tambor significa "Sentido!" Dois gol­pes, "direita, volver". Três golpes, "esquerda, volver". Quatro golpes, "meia volta". Repetin­do; a primeira ordem que darei será esta: pri­meiramente farei soar um único golpe. A esse sinal, ficarão prontas para o que vou ordenar. Alguns momentos depois, soarei dois golpes: então, todas juntas, virarão à direita, com gra­vidade. Em seguida, farei soar quatro golpes, e completarão a meia volta. Depois, retornarão à posição inicial e, como antes, ouvirão um único golpe. Compenetrem-se. Em seguida, farei soar, não dois, mas três golpes, e vocês volverão à esquerda. Ouvindo quatro golpes, completarão a meia volta. Compreenderam bem o que eu disse? Se têm alguma dificulda­de, não hesitem em me comunicar e tentarei solucioná-la.

- Estamos prontas, responderam as mu­lheres.

- Assim sendo - retomou Sun Tzu -, vou começar. Não se esqueçam de que o som do tambor substitui a voz do general, pois é por seu intermédio que ele lhes dá ordens. Sun Tzu repetiu essa instrução três vezes. Depois, ordenou de novo seu pequeno exérci­to. Em seguida, fez soar um golpe de tambor. A esse barulho, todas as princesas começaram a rir. Ele soou duas vezes, elas riram mais forte. O general, sem perder a compostura, dirigiu-lhes a palavra nestes termos:

- Pode ser que não tenha me explicado claramente. Se aconteceu isso, a culpa é minha. Vou tentar remediar o fato, falando-lhes de uma forma que esteja a seu alcance.

Em seguida, repetiu três vezes a mesma instrução, usando outros termos.

- Quero ver se agora serei melhor obede­cido.

Ele fez soar o tambor. Soaram dois gol­pes. Em virtude da situação estranha e grave em que se encontravam, as mulheres esquece­ram que era preciso obedecer. Após terem tentado controlar o riso que as sufocava, soltaram as mais vivas gargalhadas. Sun Tzu não se desconcertou. No mesmo tom que lhes tinha falado antes, disse-lhes:

- Se eu não tivesse me explicado bem, ou se vocês não me tivessem afirmado, em coro, que tinham compreendido, não seriam culpadas. Mas lhes falei claramente, como vocês mesmas ad­mitiram. Por que não obedeceram? Vocês mere­cem punição, e punição militar. No universo mi­litar, aquele que não obedece às ordens do gene­ral merece a morte. Vocês morrerão. Depois desse preâmbulo, Sun Tzu orde­nou que duas mulheres matassem as favoritas, que estavam à sua frente. No mesmo momento, um dos guardas das mulheres, percebendo que o guerreiro não estava brincando, correu para avisar o rei a respeito do que estava acontecen­do. O rei despachou alguém para proibir que Sun Tzu matasse as duas favoritas, sem as quais não podia viver. O general escutou com respeito o emissá­rio, mas não acedeu ao pedido do rei.

- Diga ao rei - respondeu - que Sun Tzu o considera bastante sensato e justo para pensar que ele pudesse ter mudado de ideia, e queira realmente que eu aceda à contra-ordem recen­te. O príncipe faz a lei, mas não poderia dar ordens que aviltassem a dignidade com que me revestiu. Ele me encarregou de treinar suas cento e oitenta mulheres. Sagrou-me seu general: cabe a mim fazer o resto. Elas me desobedeceram, por isso morrerão. Mal tendo pronunciado essas últimas palavras, tirou o sabre e, com o mesmo sangue-frio que mostrara até então, decapitou as duas favoritas, que comandavam as outras. Imediatamente, substituiu-as por outras, fez soar o tambor, como combinado. E, como se tivessem durante toda a vida exercido o ofício da guerra, as mulheres manobraram em silên­cio e de forma impecável.

Sun Tzu dirigiu-se ao emissário do rei:

- Vá avisar o rei - disse - que suas mu­lheres sabem fazer o exercício; que posso levá-las à guerra, fazer com que enfrentem todo tipo de perigo, até mesmo atravessar a água e o fogo. O rei, informado de tudo, ficou desespe­rado.

- Perdi - disse, suspirando - o que mais amava no mundo. Que esse estranho se retire em seu país. Não quero saber dele nem de seus serviços. Então, Sun Tzu disse:

- O rei ama palavras vazias. Não é capaz de juntar o gesto à palavra.

O tempo e as circunstâncias fizeram com que o rei fizesse o luto. Os inimigos estavam prestes a esmagá-lo. Então, convocou novamente Sun Tzu, nomeou-o general de seus exér­citos e, por seu intermédio, destruiu o reinado de Tchu. Os vizinhos que antes mais o inquie­tavam, cheios de temor à menção dos belos fei­tos de Sun Tzu, não hesitaram em pedir proteção a um príncipe que linha tal homem a seu serviço.

Fonte: Livro “A Arte da Guerra” edição da L&PM.

sábado, 16 de maio de 2009

Resquícios de Ditadura

Por causa de declarações dadas durante uma aula sobre a postura da imprensa diante de fatos envolvendo personalidades e políticos, o professor de jornalismo da Universidade Federal do Amazonas (Ufam) Gilson Monteiro foi agredido, ainda dentro da sala de aula, pelos empresários Amim e Mansur Aziz, irmãos do vice-governador do estado, Omar Aziz.
A agressão aconteceu na última segunda-feira (11/05), após Monteiro citar o caso da cobertura das denúncias de um suposto envolvimento de Omar Aziz em casos de pedofilia. Nesse momento, uma aluna, sobrinha do vice-governador, saiu de sala e voltou, minutos depois, acompanhada do seu pai, Mansur, e do seu tio Amim.“Ele (Amim) perguntou se eu era o professor da disciplina e foi logo me agredindo. Deu socos, pontapés e me derrubou, além de fazer gestos de que estava descarregando uma arma em cima de mim, enquanto eu me defendia. O outro (Mansur), me agredia verbalmente", disse Monteiro a um repórter do Estadão.
Em entrevista à imprensa local, Amim confirmou a agressão, mas se disse arrependido e considerou exagerada a sua atitude. Ele explicou que agiu de “sangue quente” ao ver sua sobrinha chorando e dizendo que havia sido agredida pelo professor.“Fui lá defender a minha família”, disse.Vice-governador quer processar professor.
O vice-governador, em entrevista coletiva nesta terça-feira, condenou a atitude dos irmãos, mas informou que irá pedir orientação aos seus advogados para estudar medidas judiciais contra o professor."Meu irmão é maior de idade e sabe o que faz. Agora, eu desafio as pessoas que falam essas coisas de mim, por maldade, a apresentar provas contra essa acusação. Vou tomar providências", disse.
O Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Amazonas divulgou nota repudiando a agressão sofrida pelo professor. A entidade informa que denunciou o caso às comissões de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa e da Ordem dos Advogados do Brasil, ao Centro de Direitos Humanos da Arquidiocese de Manaus e ao Conselho Estadual de Defesa da Pessoa Humana, e oferecerá denúncia ao Ministério da Justiça e à Secretaria Nacional de Direitos Humanos.“Enquanto a sociedade volta às ruas, amadurecendo o processo democrático, como estão fazendo os estudantes e trabalhadores em Manaus, pessoas que gravitam em torno do poder se acham no direito de invadir uma sala de aula de universidade e agredir um professor. Nem durante a ditadura militar se viu tamanha truculência”, diz o comunicado.
Na próxima sexta-feira, às 9h, o sindicato promove, junto com professores, servidores e alunos da Ufam, uma manifestação no Instituto de Ciências Humanas e Letras (ICHL) “como resposta aos bárbaros”. A direção do ICHL divulgou nota de apoio ao professor Gilson Monteiro, repudiando a invasão da faculdade “por pessoas estranhas ao ambiente acadêmico para agredir um professor em pleno exercício do trabalho”.“Este fato só faz lembrar os tempos tenebrosos quando os ‘sátrapas do rei’ estavam dissimulados nas salas de aulas das universidades brasileiras”, diz a nota. Pelo fato de o professor ser servidor federal, o caso está sendo investigado pela Polícia Federal.
Com informações da Agência Estado, do Portal Terra e do Portal Amazônia.